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  O Rap Popular Brasileiro de MV Bill

Divulgação
MV Bill fez questão que a entrevista para a divulgação de seu segundo CD fosse na favela onde mora, e não na sede da gravadora multinacional. “Nunca fui lá”, disse ele
Ele adora o lugar em que mora, a favela de Cidade de Deus, no Rio, mas detesta o estereótipo criado pelo filme dirigido por Fernando Meireles. Ama tanto sua comunidade que já declarou que, mesmo tendo condições financeiras de sair de lá, não vê motivos para isso. Tanto que exigiu que a entrevista fosse lá, e não na sede da multinacional (BMG) que põe nas lojas o seu CD. Aliás, este já é o segundo CD e ele ainda não colocou os pés na gravadora. “Nunca fui lá. Mas isso não impede um bom trabalho, né?”, argumenta.
O sujeito oculto do parágrafo acima é MV Bill, o mais famoso rapper carioca. Um sujeito não tão oculto assim. Depois da polêmica com o clipe da música Soldado do Morro, uma das faixas de seu primeiro CD, que quase o leva à prisão por apologia ao tráfego de drogas, MV Bill está de volta com Declaração de Guerra, um pouco mais contido, mas ainda contestador. Às letras sobre desigualdades sociais e violência somaram-se uma orquestra, percussão, naipe de metais e referências à MPB, nos samplers de Na Rua, na Chuva, na Fazenda, de Hyldon, na faixa Dizem Que Sou Louco; e de Samurai, de Djavan, em Mina de Fé. É o RPB, o Rap Popular Brasileiro de MV Bill, que ainda mistura influências do rock, como na faixa Cidadão Comum Refém, que conta com a participação do grupo Charles Brown Jr., e ao samba-rock de Jorge Benjor e Bebeto em Marginal Menestrel, com Mano Juca e Gordo.
Em um papo com o UNIVERSO MUSICAL – na Cidade de Deus, em frente a um Ciep repleto de fãs mirins – o mais famoso e polêmico rapper carioca fala sobre política, educação, preconceito e, é claro, sobre este novo rap, assumidamente mais radiofônico.

Como é essa história de Rap Popular Brasileiro?

Esse foi um título que surgiu meio na brincadeira, mas a história é de verdade. Eu ouço rap do mundo inteiro, e uma coisa que me chamou a atenção foi que todos os raps têm uma identificação com o país de origem: eles assimilaram a cultura do hip hop, de questionamento social, de engajamento político, mas foram adaptados musicalmente para a realidade dos seus países. O Brasil hoje faz uma das melhores letras de rap do mundo, mas acho que falta colocar brasilidade nas nossas músicas. Por isso, em meu segundo disco busquei alternativas, como colocar um toque africano, uma coisa que é muito presente na nossa cultura. Nos meus shows eu já misturava batidas de rap com instrumentos percussivos. Não sei o que o público vai achar, mas como rapeador, como brasileiro, como um cara que quer incluir o Brasil no rap, eu gostei muito do resultado, porque as músicas continuaram sendo rap, de um jeito com o qual me identifiquei muito, que me agradou bastante.

A idéia de convidar uma orquestra foi com esse propósito?

Sim. Eu estava cansado de receber críticas dos “cientistas da música”, que dizem que rap não é música. Quis provar pra eles e pra mim mesmo que é possível orquestrar um rap.

Você não acha que o fato de utilizar uma orquestra, além de encarecer a produção, foge um pouco da simplicidade do rap?

Não, eu acho que não. Acho que a simplicidade do rap não pode ficar presa à má qualidade, são coisas diferentes. Simples continua sendo; é uma forma simples de se fazer música. A proposta não é de dificultar ou encarecer, e sim de abrasileirar. Os rappers pesquisam muito a música americana, o soul, o funk dos anos 70, e eu queria fazer essa pesquisa também com a música brasileira. E foi assim que descobri Zé Keti, que é um cara que já falava de coisas que eu estou falando há tempos, e eu não sabia. Eu não podia continuar fazendo rap sem conhecer Zé Keti e outros artistas, mesmo que não haja engajamento político, como Hyldon. Tem um álbum de vinil novinho, que eu achei no sebo, do Hyldon, Cassiano e Tim Maia juntos, que tenho escutado muito.

Eu senti que em seu novo disco você está um pouco mais pop, é verdade?

Não sei, qual o sentido disso?

Mais pop, no sentido de radiofônico?

Ah, radiofônico é a palavra. Quando se fala pop todo mundo imagina LS Jack, Sandy e Júnior, mas é pop no sentido de popularizar. Sou do Rio de Janeiro, uma cidade que não tem cultura do hip hop, e eu achei que seria mais fácil para as pessoas conhecerem e assimilarem se tivesse um toque brasileiro. Foi onde eu busquei a brasilidade dentro do rap. Assim, o disco tomou uma tendência meio radiofônica, acredito eu, mas acho que ao mesmo tempo ele prova que o fato de estar sendo distribuído por uma gravadora multinacional não te priva de continuar contundente, questionador, em alguns momentos até polêmico mesmo, e de não ter que se corromper.

O que você tem procurado retratar nas letras de suas músicas?

São assuntos diversos. Na época do meu primeiro disco, fiz muitos debates e palestras, e isso me levou a um outro raciocínio, o de ampliar os meus horizontes e os meus pensamentos. Eu falava muito de violência, mas violência está ligada à política, a política à pobreza, a pobreza à fome, uma coisa está muito interligada à outra. Isso fez de mim um cara que deveria estar antenado com outras coisas também, um pouco em cada coisa. Acho que isso me possibilitou falar de outros assuntos, falar de outras problemáticas, às vezes até sobre o mesmo problema, mas com uma outra ótica. Eu era preso dentro de uma comunidade só, e hoje estou em todas as comunidades e em outras partes também do Brasil inteiro. Ampliei meu horizonte e meu trabalho também.

Aproveitando que estamos em frente a uma escola, você acha que a educação é a única saída para melhorar a consciência das pessoas quanto à paz?

Acho que a educação é um dos caminhos, mas a gente vive num país onde infelizmente educação e saúde são coisas que custam muito caro. A grande maioria da nossa população é de baixa renda e não tem condições de ter uma boa educação. Então, no Brasil, infelizmente quem tem uma educação são os que vêm de certa forma patrocinando o tráfico de drogas e vêm consumindo, e é através do consumo deles que se compram mais fuzis, que se faz a tecnologia chegar ao tráfico de drogas. Esses que têm acesso a uma boa educação serão nossos futuros representantes, nossos futuros governantes. Então, corremos o risco de ter o futuro de um nação sendo governado por loucos, viciados, psicopatas, neuróticos, psicóticos. Enquanto isso, vemos que as pessoas que pensam em transformar o Brasil num país melhor para se viver, transformar a sociedade, deixá-la mais igualitária, não têm essa condição porque não conseguiram estudar o suficiente, não têm uma saúde decente. A solução e o final feliz pra essa história ainda estão muito distantes, porque quem pode mais faz pouco e em vários casos não faz nada, ou só faz quando atinge a eles também.

Você acredita que a violência que atinge as classes média e alta é construída por elas mesmas?

Eu acho que ainda é muito hipócrita a relação da sociedade com a criminalidade. Vi em um telejornal paulista uma matéria que dizia que a sociedade está se armando, e que a arma dela está sendo a blindagem, seja em carros, paredes ou na roupa. Se essa foi a alternativa que a sociedade escolheu eu acho perigosíssima e trágica, porque ao meu ver a gente precisa de uma blindagem social. Acho que fazer isso não é se precaver, é se isolar, achando que o problema não vai atingi-lo. Mas quando isso acontecer talvez ele descubra que a saída não era essa. A gente não pode tratar as favelas como depósito de marginais, pois é a minoria, existem muitas pessoas de bem dentro das comunidades. Elas não podem ser injustiçadas por uma minoria, que é problema da polícia e da justiça. Mas a população, não, é problema de todo mundo, é problema da sociedade. A gente tem deixado as favelas crescerem ainda mais, a pobreza crescer ainda mais, e a gente infelizmente só veste a camisa do Brasil na hora da Copa do Mundo. Vibramos na hora do penta, mas nos escondemos de vergonha quando ganhamos o prêmio de quarta pior distribuição de renda do mundo, o que é vergonhoso pra caramba. Vivemos em um país grande e rico, cheio de coisas para serem exploradas e de riquezas para serem divididas entre nós mesmos, e enquanto isso a sociedade fica presa a uma minoria, ao mesmo tempo em que a grande maioria não tem o que comer.

Essa declaração de guerra é para alguém ou algum setor?

Declarar guerra é uma forma minha de clamar pela paz. Acho que a sociedade é muito tendenciosa, por exemplo, ao dizer que o que vem da favela é marginal, o que é produzido pela comunidade é bandido. Eu queria exatamente mudar essa mentalidade. Mas coisas que eu produzi foram vistas com os piores olhares possíveis, enquanto a mesma coisa sendo feita por uma pessoa de cabelos dourados e olhos azuis, com doutorado, é um outro resultado, é uma outra visão, é uma outra história. E o que é que determina isso, qual é o critério usado pra determinar o que é a arte e o que é o banditismo? É contra essas coisas que eu declaro guerra. Não quero que venha o branquinho loirinho de olhos azuis contar a minha história, a minha história eu conto, eu quero contar a minha história, mas desde o momento em que as coisas que a gente produza não virem mais banditismo. Acho que é declarar guerra a todos os tipos de preconceito, esse preconceito medíocre e imbecil que existe no Brasil. Eu, na realidade, não prefiro preconceito nem racismo nenhum, mas nos EUA tem aquele racismo na cara, aquela coisa nojenta que você vê quem é quem, e aqui, não, aqui você dorme com o inimigo, você aperta a mão do seu inimigo, você é representado pelo seu inimigo. Aqui é um racismo velado, é racismo pelas costas. As pessoas apertam sua mão e te dão uma facada nas costas. É um "pré-conceito", as pessoas prejulgam só de olhar na cara daquele cidadão, de olhar na pele dele, de olhar na origem dele, e eu declaro guerra a tudo isso. Se for preciso declarar guerra pra gente chegar à paz, pra gente chegar a um denominador comum, pra gente chegar à igualdade, essa guerra pra mim já está declarada.

Você se refere ao que fizeram com você, te julgando pelo clipe Soldado do Morro?

Cara, eu não fui julgado, eu fui condenado sem ter sequer o direito a um julgamento. Eu não tive advogado, fui condenado, é bandido, é errado, é apologia. Eu acho que eu só não fui preso porque não havia argumentos convincentes que pudessem me manter na prisão. Agora, eu soube me defender, me desenrolei no meu depoimento, falei apenas coisas em que realmente eu acreditava, que eu achava que eram verdadeiras, e o delegado não conseguiu me prender.

Você se refere também ao filme “Cidade de Deus”?

Imagina se fosse eu que tivesse dirigido o "Cidade de Deus". Mais uma vez iam dizer que eu estava mostrando uma imagem favorável do tráfico de drogas. Então eu fico puto de saber que o que é produzido na favela é o marginal, e o que é produzido por eles, pelos pais deles, são as coisas bonitas, o texto bandido vira literatura, o cinema bandido vira sétima arte.

Você pretende continuar morando na Cidade de Deus?

Moro aqui desde que nasci. No primeiro disco eu achava que, depois de um tempo após o lançamento, teria que sair. Aí, quando o disco saiu, foram acontecendo as primeiras coisas e essa relação de fama com a população foi a coisa mais tranqüila que eu já vi na minha vida. Aí eu vi que não tinha necessidade, porque tivemos vários exemplos dos pagodeiros pretinhos da favela, que começaram a ganhar dinheiro, encheram a cara de pó-de-arroz, arrumaram uma loura, foram morar em outros lugares, foram ser vizinhos daqueles que eles criticavam antes, quando moravam nas comunidades. Vários deles estão retornando à favela e dizem que vão retornar de cabeça erguida, porque têm dignidade. Não é medo de ter que sair e depois voltar, é a convicção de achar que não tem necessidade. Aqui as pessoas aqui me respeitam, você está vendo como as crianças gostam de mim, tanto que no próximo disco eu estou até pensando em fazer uma música voltada para elas. E as crianças têm em mim, não sei se é a palavra certa, mas têm uma referência, elas vêem em mim alguém que ao mesmo tempo é querido fora da comunidade deles, em outros lugares, longe pra caramba, elogiado por gente que eles nunca viram na vida deles, mas sequer eles sabem que são gente importante. Pô, eles me têm assim do lado deles, pertinho, pra se encostarem a hora que quiserem falar comigo. Essa relação é permitida porque permaneço aqui; se eu sair, acho que será natural perder o contato com eles e ir me distanciando. Por mais que eu já tenha distanciado os meus pensamentos, o meu discurso, que tenha amplificado ainda mais, eu ainda continuo preso a eles, continuo muito ligado a eles, mesmo falando de outros assuntos.


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