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  Livre de amarras, Fagner dá voz aos poetas nordestinos

Divulgação/Gentil Barreira
Fagner define Francisco Carvalho, seu novo parceiro, como uma mistura de Ferreira Gullar e Capinan. “Ele é um poeta surpreendente, com uma musicalidade enorme”, elogia o cantor

Por Marcos Paulo Bin
27/09/2004

Ao estrear “em carreira solo” na Indie Records, após o disco que gravou na companhia com Zeca Baleiro, Raimundo Fagner pensou em novamente fazer um dueto, mas desta vez com um antigo conhecido, o letrista e poeta baiano José Carlos Capinan. No entanto, descobrir um livro, de versos belos e profundos como “Que bicho é o homem / Que raio lhe acende a chama da fúria / O que é que sobra da cesta básica de sua penúria”, o fez mudar completamente de idéia.

O livro chama-se “Raízes da Voz”, e seu autor, Francisco Carvalho, um poeta cearense, como Fagner, de 80 anos. Apresentado a sua obra pelo amigo jornalista Vicente Alencar, o cantor não resistiu e, como num impulso, abandonou o projeto com Capinan para musicar textos do poeta, que até chegou a ganhar o Prêmio Nestlé de Literatura, mas ainda é pouco conhecido em sua própria terra. O resultado está em quatro das 13 faixas do novo CD de Fagner, Donos do Brasil.

“Eu queria fazer um disco voltado para as coisas brasileiras. Mas, ao ver a poesia de Francisco Carvalho, deu uma virada geral. Foi uma situação poética emergencial. Senti que estava diante de um talento inimaginável. Ao ver um poeta tão bom e desconhecido, até para mim, que sou seu conterrâneo, eu tinha que levar o disco para este caminho”, disse Fagner, em coletiva no Rio.

Além de Bicho Homem, dos versos citados acima, os textos de Francisco Carvalho viraram as músicas Esse Touro Vale Ouro, Cesta Básica e o pot-pourri Reino/Minueto da Porta. Fagner, que até hoje só conhece o poeta pelo telefone, o define como uma mistura de Ferreira Gullar e Capinan.

“Ele é um poeta surpreendente, com uma musicalidade enorme. Descobrir um cara falando essas coisas aos 80 anos, não tem como não se assustar. Ele é a grande novidade deste disco. E esse é o nosso serviço, trazer coisas novas para o povo. Se eu tomei esse susto, será que outras pessoas não vão tomar?”, argumenta o cantor, que dá de ombros para as vendas que o CD terá. “Fiz o disco que queria e gostava. Minha preocupação é com a qualidade. Não estou mais na idade de pensar somente no aspecto comercial. Acho que as coisas só comerciais, hoje, já nascem mortas. Minha arma é o melhor que eu puder fazer.”

Mesmo sem se ater a números, Fagner fica feliz só de pensar na possibilidade de ouvir algumas pessoas da platéia, nos shows, cantarem com ele as músicas do disco.

“Não sei que efeito as músicas vão surtir. Mas é melhor dizer alguma coisa que ouvir 100.000 pessoas cantando merda. A indústria fonográfica tem esse poder. Eu tenho prazer em fazer uma coisa de qualidade e ver as pessoas repetindo”, dispara o cantor, afirmando que seu trabalho com Zeca Baleiro já foi um primeiro passo no sentido de se libertar das amarras da indústria.

E, por falar nela, que reação teve a gravadora de Fagner ao saber que o cantor, conhecido por sucessos populares como Canteiros, Deslizes e Borbulhas de Amor, estava fazendo um trabalho tão introspectivo e de pouco apelo comercial?

“Tive um entendimento ótimo aqui dentro. Acho que o recado foi dado. Apesar de algumas algemas, tive liberdade”, disse ele, meio brincando, meio sério. “Foi uma liberdade condicional”, emendou, rindo, Líber Gadelha, dono da Indie, que passava na sala naquele momento.

Música regional para exportação

Fagner vê uma forte conotação nordestina em Donos do Brasil. Na capa e na contracapa do CD isso já fica visível, com fotos de uma duna, típica das praias do Nordeste, e do Grupo Reizado Barbalha, do Ceará. Musicalmente essa preocupação também aparece. Além de Francisco Carvalho, o cantor convocou outros poetas nordestinos para musicar seus versos, como o próprio Capinan, com quem ele compôs Nome de Estrela, e Fausto Nilo, co-autor de Rosa da China.

Perguntado se acredita que a cultura nordestina é vista de forma estereotipada no Sul e no Sudeste, Fagner adota um discurso político, que até parece um pouco revanchista, embora ele negue isso.

“O que move a cultura do Sul é o Nordeste. Aqui é o mercado consumidor. A emoção do Brasil não está no Sul, está lá. Aqui estão as armações, as multinacionais, a fábrica do pagode, do axé”, diz o cantor.

Fagner estende sua insatisfação para a indústria musical, cujo mainstream está no Sudeste. Para ele, fazer um disco como Donos do Brasil é um risco que todo artista deve correr, em nome da liberdade de criação.

“Chegou-se a um ponto tal de não-audição de música no Brasil, pela ditadura do rádio e da TV, que tem um monte de gente querendo ouvir coisas novas. Cria-se um outro tipo de público, mais forte do que as gravadoras pensam; o mundo é muito maior do que aquilo que se passa nos escritórios dos executivos. O mercado tá saturado, as gravadoras se deram mal. O Brasil está virado de cabeça pra baixo. Nosso maior produto de exportação é a pobreza”, afirma.

Fagner está fazendo a parte dele para reverter esse quadro. Além de ter gravado um disco irrepreensível, um dos melhores do ano, ele está explorando seu lado de produtor, procurando novos talentos no interior do país. Dois já foram descobertos: João Matias e João Goiano, dois senhores em torno de 60 anos que, ele garante, fazem música sertaneja autêntica.

Na área dos projetos, o cantor planeja fazer um disco que misture a música regional nordestina com a do resto do país, para exportação. Quando esse sonho for concretizado, ele acredita que terá feito a grande mudança de sua carreira.

“Quero fazer um disco para concorrer mundialmente com o axé. A música percussiva que é vendida por aí é muito quadrada, feita só para dançar. Quero fazer algo regional mas de qualidade”, dispara Fagner, com a mesma sinceridade que imprime no seminal Donos do Brasil.


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